O Manifesto Livre Dia: Pela Escrita Humana

Por Monalisa Gomyde, em 2 de Março de 2026

A poeta Mary Oliver diz em um de seus poemas que é simples ser salva pela vida, o necessário é estar entre as árvores, os rios e os animais. Deixar-se estar com e no mundo. Muitos artistas têm descrito a comunhão com a natureza em suas obras. Mas, qual a relação disso com a Inteligência Artificial? Segundo dados de 2025, apenas o ChatGPT consome por volta de 10 a 25 milhões de litros de água por dia. Um dos principais gastos hídricos se dá no processo de resfriamento, já que os centros de dados geram uma quantidade exorbitante de calor. Qual o custo da criação desse pseudo mundo paralelo em sua deglutição e repetição contínua de dados? As palavras da poeta retornam à mente, agora invertidas: a história do desenvolvimento tecnocrata capitalista é a profanação da relação dos seres humanos com a natureza, uma história anti-poética e, por fim, necrófila e suicida, pois nós também somos natureza.

Mas, voltemos ao nosso cotidiano. Sentamos na cadeira, ligamos o computador e as mãos repousam no teclado. Hora de escrever. É um e-mail formal? Uma mensagem de feliz aniversário para uma amiga querida? Uma reclamação de um produto com a entrega atrasada? Ao tomar a decisão de escrever seu lobo frontal precisa elaborar a tarefa, talvez seu hipocampo precise entrar na dança te ajudando a recuperar memórias e organizar os fatos, a área de Broca trabalhará bastante, já que é responsável pelo uso da linguagem. No sulco lateral, a área de Wernicke virá à cena para que você possa compreender aquilo que escreveu e fazer ajustes. Isso, e muito mais, é o que o seu cérebro opera em questão de segundos para escrever um mero “parabéns”. Uma criança pequena, no entanto, não sente como mero o processo de articulação da escrita, nós confortavelmente esquecemos o esforço árduo necessário para desenvolver as habilidades que quando adultas e adultos temos como dadas. No império da IA, o futuro que nos vislumbra é um de incapacidade criativa tão básica que até sua reclamação no app de delivery será algo além das suas habilidades. A quem interessa a decadência cognitiva dos seres humanos? 

Este manifesto está repleto de perguntas, pois oferecer respostas rápidas e sucintas para questões complexas é sempre uma espécie mentira reducionista. Cabe a nós, em conjunto, a escrita das respostas, que podem acabar abrindo, se tivermos sucesso, ainda mais perguntas. O fenômeno da IA é o desenvolvimento direto de uma forma de conceber a realidade que se encontra registrada na virada patriarcal da cultura greco-romana, encorpado pelas grandes religiões monoteístas e solidificado pelo pensamento científico ocidental cartesiano. Sob o risco de parecer simplista, podemos marcar essa virada no momento em que a divisão binária da realidade emerge: lá, na criação do logos racionalista, que extirpa o âmbito relacional com a matéria, a natureza, as mulheres e o animais daquilo a ser considerado inteligível e comunicável. A IA é a efígie dessa separação, uma criação patriarcal que depende da destruição da natureza para existir enquanto nuvem de informação no éter. Mas até isso é impossível, veja toda a estrutura material necessária para que os dados sejam processados. 

Por trás da criação de “robôs”, está o lado mais trágico, a própria compreensão da vida e do corpo como máquinas a serem manejadas, o ser como uma compilação de dados. Observe suas interações sociais e veja se em muitas delas você não estava em autopilot; observe sua alimentação e veja se come comida ou se absorve macronutrientes; você caminhou ou deu os 10.000 passos contabilizados no seu smartwatch? Por fim, a IA é um espelho do mundo criado por uma sociedade que sofre. Qual a solução? É impossível barrar o desenvolvimento tecnológico, mas seu emprego deve estar nas áreas que poderiam livrar as pessoas de tarefas repetitivas e cansativas, abrindo espaço para que possamos viver de maneira íntegra. Enquanto isso, cabe a nós salvaguardar o reduto sagrado da imaginação, da crítica, da apreciação e da escrita.