Cheguei em Varanasi, a cidade de Shiva, na vésperas do Natal de 2019. Estava frio e já no primeiro dia saí andando por suas ruelas que mais parecem um labirinto.
Cada esquina, cada casa, cada loja, cada pessoa, tudo era tão fotogênico que levei um tempo pra fotografar mentalmente tanta informação. Fui me aproximando do Rio Ganges, e sem me dar conta, me aproximava também de um Ghat de cremação. Os hindus acreditam que ser cremado em Varanasi e ter suas cinzas jogadas no Ganges te garantem a ida direta ao Nirvana e o fim do ciclo de sofrimento (vida e morte). Todos querem morrer aqui e há muitas pessoas que vem morar na cidade quando envelhecem, só esperando o dia de sua morte.
Próximo aos locais de cremação, que são à beira do rio Ganges, você vê a movimentação constante de famílias carregando seus mortos. Normalmente eles são enrolados em alguns panos enfeitados e colocados em cima de uma maca para ser carregado. Enquanto os homens da família levam o corpo, descendo pelas vielas, eles vão entoando mantras hindus. É uma cena chocante para nós ocidentais, mas também muito bonita.
Meio em estado de choque vendo a fé e a relação daquelas pessoas com a morte, continuei seguindo até o local de cremação. E, de alguma forma que não sei explicar, parei no meio de todo aquele monte de cinzas, lenhas, corpos e fogo. Mulheres normalmente não vão até esse ponto, mas sem saber como, lá estava eu. E ninguém me tirou. Em sinal de respeito me afastei um pouco e fiquei observando todo aquele movimento. Corpos queimando, um homem ajeitando para que todo o corpo seja queimado, os homens da família - pais, filhos, tios, primos - por ali, aguardando por horas até que tudo vire pó.
Eu em êxtase pensava na minha vida e nas pessoas da minha vida. Pensava na vida daquelas pessoas sendo queimadas, tentava imaginar se foram legais, rabugentas, se seguiram seus sonhos ou se so sobreviveram. Tanto faz. Todo mundo morre.
Eu sorri sem perceber, não tinha medo e nem repulsa. Porque as pessoas não conversam sobre a morte? Quando foi que falar ou até pensar na morte se tornou um mau agouro?
Sai de lá com uma sensação estranha. Algo tinha mudado em mim, eu sabia disso. Fui dormir e, no outro dia, Natal, acordei pronta para celebrar a vida.
Os dias em Varanasi me mostraram que não há vida sem morte. Elas estão juntas, todo o tempo. E quando entendemos que a vida é finita e aprendemos a lidar com a morte como um processo natural, também aprendemos a viver melhor.
A morte não é só a do corpo, a morte está em tudo que não queremos mais. Todos os dias devemos pensar no que precisa morrer em nós para que a vida possa fluir. Deixe ir, deixe morrer.