As pessoas, incluindo e principalmente o rapaz que encontrou os negativos, pareciam surpresas com o fato de uma mera babá e empregada doméstica ser uma artista. Esses dois polos imensamente distantes em suas mentes, imagine só, alguém presa na imanência de cuidar de crianças que nem mesmo são suas e o universo agitado e presente no mundo em que se imaginam viver os artistas, o que mais pode ser tão dissonante? Ouvir homens extremamente feios e mulheres ricas falarem sobre sua ex-babá esquisita e peculiar agora ressignificada sob o signo de um gênio não descoberto me empurrava, quase que brutalmente, para o outro lado, o lado de fora, ao mesmo tempo em que entendia a imensidão da estreiteza de mente dessas pessoas.
É óbvio e perfeitamente natural que uma mera babá seja uma artista solitária. Na minha mente já traço os contornos de todas essas mulheres sozinhas e mais livres do que qualquer esposa de magnata, filas e filas de muitas de nós, nossa alma e nossa visão encarceradas em vidas de meras babás, meras secretárias, meras proletárias, meras enfermeiras, meras professorinhas, meras esquisitonas solteironas pelos cantos das cidades ou entre multidões anônimas.
Os autorretratos de Vivian em vitrines de lojas no centro de Chicago, as fotos de sua sombra em gramados dos subúrbios onde trabalhava e as muitas fitas com gravações de seus pensamentos sobre o que acontecia no mundo são evidências de sua conversa solitária frente à câmara de ecos que é pensar e necessitar dizer enquanto mulher. Uns anos atrás lembro de conversar com uma querida amiga sobre o que faz um artista e se, por acaso, seriamos artistas se as únicas pessoas nos reconhecendo neste lugar fôssemos nós mesmas. Alguém que fala, um alguém fêmea, sem audiência é o que senão louca?
Mas eu entendia a mensagem de Vivian, mesmo embaixo de todas as camadas de idiotice no invasivo documentário sobre sua vida, e ao olhar para minha namorada notava que ela também entendia. Essa mensagem é a mensagem de uma vida, de uma escolha, a escolha para fora. Dizem, quando anunciamos publicamente que somos lésbicas, que estamos a sair do armário, mas na verdade nós estamos saindo da cultura, saindo da família, saindo da própria linguagem. Ao ver a vida, ou de alguma forma ouvir a voz, de outra que também saiu o reconhecimento é tão rápido quanto agridoce, ai está a história de outra forasteira.