— Sim, meu pai, ouvi-os discutir cem vezes. Mas que ciência virá a ser essa que nunca me explicou, e que se não aprende em nenhum compêndio? Metafísica do medalhão?
— Pior que metafísica. A metafísica, ainda quando fosse tão oca como dizem, pode dar alguma cousa; mas o medalhão é obrigatoriamente vazio.
— Homem ou cousa?
— Tanto uma como outra cousa.
— Explique-se melhor.
— Vou fazê-lo; assenta-te aí, conversa-nos. Completas hoje vinte e um anos; entras na idade em que os homens formam-se, ou reformam-se. Creio que não darás desmentido ao costume geral dos que têm vinte e um anos. Alguma cousa hás de querer ser.
— Decerto.
— Advogado, médico, negociante, padre, pintor, jornalista, o diabo. Todas as profissões, cujo exercício está ao alcance de todos, sem outro tirocínio mais que o tirocínio da própria vida, mediante certa dose de paciência... Bem; o medalhão não é propriamente uma profissão, como a de advogado ou médico; é antes um cargo, uma sinecura do espírito. É antes uma ocupação geral das faculdades humanas...