Vivemos tempos sombrios. Vemos fome em toda esquina, desviamos o olhar. Vemos miséria todo dia, trabalhamos nossa vida com medo de chegar lá. O tempo já não corre como outrora, vinte e quatro horas não dá. Vemos morte nos noticiários e pensamos ‘que bom que eu não estou lá’. O homem criou Deus e o matou logo em seguida, já faz muito mais do que três dias, receio que dessa vez ele não queira voltar. O homem criou a primeira guerra e ainda insatisfeito, guloso, inventou a bomba nuclear. Hoje o outro é só o outro, ‘eu já tenho muito com o que me preocupar’. Carecemos de sensibilidade, precisamos forçar o olhar. Que a fome do outro nos tire o sono! Que aquele menininho bombardeado que tá ‘lá’, saiba que ele foi lembrado, que em alguém aqui doeu, que em aqui, também, algo morreu. Que nossa alma chore ao se olhar no espelho, sentindo as dores do mundo inteiro, sem desviar o olhar. Olhe os pés descalços na calçada, olhe aquele pai que tá pedindo só um arroz, ofereça a ele carne. Olhe os pássaros, as árvores tortas impedidas de cantar, ofereça ao lago suas lágrimas cansadas, respira fundo o ar. Segura aquela mão que pede-lhe moedas, talvez estejam nelas as cicatrizes do filho da terra e do mar. Acredite nos poetas, há poesia em tudo que toca essa terra, é só saber olhar.
Maria