Apita longe o trem. Talvez não tão longe. É logo ali. Minha cabeça doi e apita junto. Não pelo barulho, mas pelo zumbido ansioso. É tanta coisa, é tanta angústia. Ninguém se importa muito, quase ninguém vê nada, mas mesmo assim eu sinto como se fosse tudo espetacularmente muito importante. É estranho observar isso agora, pois talvez seja a primeira vez na minha vida em que essas coisas são mais valiosas para mim do que para os outros. Também, não posso ficar surpreendido, os outros vem diminuindo muito ao longo do tempo. Estatisticamente faz sentido. Já li em algum lugar que a vida é assim. Que as pessoas são como água num lago ao sol. Vão se evaporando. Pra ser honesto, eu gosto disso também. Água parada é pior. Dá mosquito e não serve pra beber. E, mesmo que você quiser beber, terá que se empenhar num longo e custoso processo de purificação. Neeeem, chega. Tô de saco cheio de ser o purificador, a vela daquele filtro de barro, o saco de resíduos do aspirador de pó, a espuminha do seu cigarro.
Um vento fresco. As pequenas lâmpadas da cidade. O som dos carros. A rotina está me preenchendo completamente. Tanto que tenho madrugado para trabalhar, não paro para comer, não me cuido como deveria e durmo o mais cedo que eu posso ouvindo algum audiobook. Do que estou fugindo? Existe algo com que não quero lidar ou este sou eu mesmo? Não há referências para comparar com o passado, pois eu renasci. Será que vou renascer novamente em algum momento futuro? Quantos renascimentos ainda virão?
Tento não pensar em nada, mas só penso em produzir. Minha mente se tornou uma grande moedora de informação. Consumo, consumo, consumo. Está sempre acelerada. Eu deveria sentir menos arrependimento por beber tanto Clonazepam. Eu deveria fumar quem sabe. Eu deveria beber mais álcool certamente. São essas coisas que existem dentro da caverna. Talvez um chá, talvez uma série de TV, talvez algumas horas livres de algum jogo no Playstation. Eu gosto até do ato de digitar. Eu gosto da luz branca da tela ardendo na minha cara. Eu gosto do que eu vejo. Eu gosto da dor no meu pescoço flexionado por horas. Eu amo celular. Eu amo computadores. Eu amo as pessoas. Eu amo trabalhar. Eu amo a vida provavelmente, da forma como ela é. Ruim. Isso, pois não espero mais nada dela e no fundo sei que dela, só terei desgosto se me esforçar menos. Os budistas sempre estiveram certos. A samsara é uma cama de hospital na qual estou deitado e anestesiado.