A Terceira Margem do Rio

Conto metafísico

Escrito na noite de 03 de Abril de 2024 em Cordisburgo
Selo LIVRE DE IA
Brasil Conto Existencialismo Sertão

Guimarães Rosa

@guimaraes

Escritor, diplomata e médico mineiro. Revolucionou a literatura brasileira com sua linguagem inovadora e neologismos, explorando o sertão brasileiro de forma poética e filosófica. Autor de "Grande Sertão: Veredas".

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não se demonstrava, se ia pôr em pregos de pescaria e caçadas? Nosso pai nada não dizia.

Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, mon de menos de um quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Modo Foco

PDF

Referência BibTeX

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Referência ABNT

GUIMARÃES ROSA, João. A Terceira Margem do Rio: Conto metafísico. Plataforma Livre Dia, 03 abr. 2024. Disponível em: <https://livredia.com.br/texto/729/>. Acesso em: 29 2026.

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